Línguas - Diversidade cultural em vias de extinção


Cerca de 90 por cento das línguas atualmente faladas no mundo vão desaparecer até ao final do século, devido ao processo de globalização. Com 97 por cento da população mundial a falar um número de línguas que representa apenas quatro por cento do patrimônio linguístico mundial, os restantes idiomas vão entrar num processo de extinção. Nove línguas irão predominar, incluindo o português.

Atualmente existem cerca de 6500 línguas diferentes em todo o mundo, das quais metade são faladas com pouca frequência. As chamadas línguas minoritárias e os dialectos estão sob forte ameaça de extinção. A informação é da UNESCO, e baseia-se num estudo que analisa a pressão exercida pelas línguas dominantes, apontadas como principais responsáveis pela provável extinção de 90 por cento dos idiomas falados no planeta. Este organismo da ONU lembra que o desaparecimento de uma língua acarreta a perda definitiva de uma parte insubstituível do conhecimento humano, uma vez que quando uma língua morre leva consigo a cultura do povo que a usava. A principal causa deste processo de extinção deve-se à globalização, que padroniza o idioma de cada nação. Isso faz com que as línguas não oficiais acabem por ser pouco valorizadas e sejam faladas por um número cada vez menor de pessoas.

Das cerca de 6500 línguas do mundo, 33 por cento encontram-se na Ásia, 30 por cento na África, 19 por cento na Oceânia, 15 por cento na América e os restantes três por cento na Europa. As dez línguas maternas mais faladas são utilizadas por quase metade da população mundial, aproximadamente 2,6 mil milhões de pessoas. São elas o mandarim, o inglês, o espanhol, o bengali, o hindi, o português, o russo, o árabe, o japonês e o alemão. Embora seja o idioma mais falado do mundo, o mandarim é usado em poucos países, mas há que pensar que só a China conta com 836 milhões de falantes. Já o inglês, com menos da metade de falantes, é a língua oficial de cerca de 45 países e a segunda língua de aproximadamente 150 milhões de pessoas em todo o globo.

Moribundas e ameaçadas

As línguas podem ser agregadas em três grandes grupos em relação às suas perspectivas de sobrevivência. São designadas "moribundas" quando já não são aprendidas por crianças. Calcula-se que de 20 a 50 por cento dos idiomas estejam nessa situação. Diz-se que estão "ameaçadas" quando se encontram em vias de deixar de ser aprendidas por crianças. E são consideradas "seguras" quando não se enquadram nas categorias anteriores. Apenas dez por cento dos idiomas são suficientemente "robustos" para se encaixarem nesta última definição. O fenômeno de extinção de línguas não é novo. Acredita-se que o pico da diversidade linguística tenha ocorrido há 15 mil anos, quando uma população consideravelmente menor do que a atual falava mais de 10 mil idiomas. A extinção de línguas foi muito intensificada nas últimas décadas, devido à crescente urbanização.

Os dialectos (modalidades regionais de uma língua), cujo número rondará os sete a oito mil, seguem o mesmo rumo em muitos países. Cada vez menos falados pelas novas gerações, os dialectos são cultivados em nome da tradição e da variedade linguística e cultural. Estudos do "Programme for International Student Assessmente", da OCDE, provam que os dialectos elevam a competência linguística. Todavia, a imagem negativa e o reduzido prestígio dos dialectos são o que o que mais contribui para o seu gradual desaparecimento.

Preservar territórios

O linguista britânico David Crystal defende o ativismo linguístico para proteger idiomas ameaçados, que compara a espécies animais em extinção. No seu livro "Language Death", refere estimativas segundo as quais "hoje existirão cerca de 6700 línguas em todo o mundo. Só umas 600 de entre elas não estão ameaçadas de se extinguirem em cem anos". A morte de um idioma, explica, é o sucumbir de uma cultura: "Morrem tradições, folclores, sentimentos, memórias." Se o desaparecimento linguístico não é novo, daí a existência de línguas mortas, a sua protecção é bem recente. "Só me dei conta do problema quando li num estudo que morre, em média, uma língua a cada 15 dias", conta David Crystal.

A conservação científica de uma língua, porém, é polémica e dispendiosa. Cálculos apontam para que sejam necessários 170 mil euros para registar a memória de um idioma. E, de acordo com dados apresentados em "Language Death", cerca de 40 por cento das línguas nunca foram escritas ou gravadas. "Se essas línguas morrem, é como se nunca tivessem existido. É importante formar pessoas para fazer dicionários, gramáticas e escrever as lendas de cada língua", alerta David Crystal.

Em alguns casos, a situação é irreversível. A enciclopédia "Ethnologue – Languages of the World" refere que foram detectadas 58 línguas com apenas um falante. A documentação de línguas em extinção torna-se ainda mais complicada por, para muitas delas, não existir alfabeto. David Crystal lamenta que haja quem pense que a extinção dos idiomas não seja negativo: "Muitos seguem a história bíblica da torre de Babel, segundo a qual a proliferação de línguas seria uma penalidade imposta à humanidade." Nesta versão simplista e fundamentalista, o seu desaparecimento restauraria a perfeição original.
Uma das razões para o risco de desaparecimento de línguas é que meta de dos idiomas é praticado por comunidades pequenas, com menos de 2500 falantes, segundo dados do Worldwatch Institute. E, de acordo com a UNESCO, para passar de uma geração a outra, uma língua precisa ser falada por pelo menos 100 mil indivíduos.
Um exemplo que demonstra que a extinção de idiomas atingirá também a economia global é o das tribos indígenas da África e da Amazónia. Elas têm um profundo conhecimento das plantas, dos rituais e dos animais das suas regiões. A indústria farmacêutica terá dificuldades em pesquisar novos princípios activos nas florestas sem a ajuda e o saber ancestral destas populações locais. Todos os idiomas têm o seu valor, o que é lembrado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente ao afirmar que «o desaparecimento de uma língua e do seu contexto cultural equivale a queimar um livro único sobre a natureza».

Um plano de salvamento

Entre 20 e 30 línguas desaparecem anualmente. Para que, no futuro, a linguística não se resuma ao estudo de línguas mortas, a UNESCO reuniu um grupo de especialistas para elaborar um plano de salvamento dos idiomas. Um dos membros desta missão, Colete Grinevald, do Laboratoire Dynamique du Langage, esclareceu que «é preciso preservar o território das comunidades e proteger as suas terras, para que elas possam continuar a viver no seu ambiente. Os planos para se criarem escolas e implantar cursos bilingues são folclore tipo Disneylândia». Para esta linguista, deve-se lutar contra a aculturação e evitar que as comunidades indígenas se tornem monolíngues, abandonando a sua cultura em prol da colonial.
Há um povo na Austrália que tem uma palavra precisa para dizer o cheiro da chuva. Na Colômbia, há uma comunidade cuja língua tem uma palavra única para expressar o deslumbramento exagerado perante a beleza. Para preservar uma tão rica capacidade de expressão, estes povos estão dependentes da defesa dos seus direitos culturais e, no plano internacional, dos resultados de resoluções como a adoptada em Outubro de 2005 pelo Parlamento Europeu: a «Convenção sobre a Diversidade Cultural», que pretende defender o multilinguismo e o respeito pelas culturas.
Apesar das tendências actuais, os linguistas são unânimes a afirmar que o inglês como língua universal é uma hipótese tão viável como o utópico esperanto. «Mesmo que uma língua venha a dominar o mundo, num período de dez anos, ela sofrerá várias mudanças em diferentes países e culturas, e uma outra língua acabará sendo criada. A linguagem humana é bastante dinâmica», assegura o linguista David Lightfoot, da Universidade de Georgetown.

Implosão cultural

O investigador David Turner testemunhou que «uma das principais causas para a extinção de línguas é o amor», exemplificando com o caso mexicano de «um zapoteca que se apaixona por uma mixteca. O mais provável é que o casal e os seus filhos adoptem o espanhol e, nesse caso, perder-se-ão, numa só geração, duas línguas indígenas». Outras causas, menos pacíficas, justificam a morte de línguas, como os processos de subordinação social de muitos povos, através da imposição de políticas monolíngues de domínio cultural, a internacionalização dos mercados, as correntes migratórias dentro e fora dos países e a imposição de uma só forma de conhecimento. No fim nem o verbo.
A maioria das línguas tem uma distribuição muito limitada. Cerca de 80 por cento das línguas do mundo são faladas apenas nos seus países de origem, e virtualmente todas as línguas ameaçadas são endémicas (não são faladas em nenhum outro lugar). Tal como nos seres vivos, a endemia aumenta a vulnerabilidade. A diversidade linguística do planeta concentra-se em apenas algumas regiões, todas elas ricas em biodiversidade. A região do Pacífico, particularmente, produziu uma surpreendente diversidade de idiomas. Mais de metade das línguas são faladas em apenas oito países. Alguns destes «pontos quentes» linguísticos parecem estar à beira de uma implosão cultural.
Apesar de, nos dois últimos séculos, se ter testemunhado a emergência de diversas línguas novas, estes desenvolvimentos pouco fizeram para mitigar a perda linguística. Entre as novas línguas naturais estão 81 crioulos (idiomas de formação rápida em comunidades multilingues) e 17 pidgins (linguagem de recurso entre falantes de línguas maternas diferentes).

Línguas que renascem

Consciente da importância de manter as línguas minoritárias, a União Europeia decidiu protegê-las. Há uma década que está em vigor a «Carta das Línguas»», que classifica as comunidades linguísticas regionais do continente e propõe formas de preservá-las.
O intrincado relacionamento entre língua, diversidade cultural e autonomia política revela que suprimir línguas é quase sinónimo de eliminar manifestações de oposição política. Francisco Franco reprimiu o uso das línguas de Espanha para impor o castelhano e reforçar o poder central. O ditador Benito Mussolini, por seu turno, tentou proibir o uso de dialectosem Itália. O francês já serviu como instrumento de opressão e resistência. O idioma nasceu das modificações que os francos, um povo germânico, impuseram ao latim dos dominadores romanos. Foi o que sucedeu também no alvorecer das demais línguas neolatinas, inclusive o português, o italiano e o espanhol. No Reino Unido, hordas de invasores germânicos "oprimiram" os idiomas celtas quase até a extinção e da mistura das suas diferentes línguas nasceu o inglês.
As línguas minoritárias do continente europeu podem desaparecer mesmo sem a violência que caracterizou os processos de colonização. Contudo, a pressão para uniformizar torna o domínio de uma língua minoritária, antes um motivo de constrangimento, razão de orgulho para as novas gerações. Algumas línguas estão a retornar lentamente, ajudadas por grupos comunitários, governos e linguistas. O nacionalismo tem sido uma poderosa força para tais ressurgimentos, como no caso do hebreu, em Israel. No México, os zapatistas estão a exigir o renascimento das línguas maias. Esforços estão também a ser desenvolvidos para fazer reviver o gaélico no Reino Unido, o navajo nos Estados Unidos, o maori na Nova Zelândia e diversas línguas nativas no Botsuana.



Fonte:
http://www.alem-mar.org/
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